sótão

é alta a noite e só uma pergunta se sustenta no ar. levanto os olhos como quem perde as esperanças e conto as estrelas. estaciono meu carro vermelho  no pátio em frente. atrás de mim há vozes e passos. caminho em direção à porta, sou atingida bruscamente por uma barra de ferro na nuca, mas continuo andando. a nuvem de pesar se dissipa. eram dois jovens bem vestidos conversando sobre a vida atrás de mim.

que fazer de minha existência rouca. que fazer do meu querer.

é noite alta, madrugada. entre o breu e as trevas os bêbados brincamcom a fosca lucidez, o cansaço no fim do dia. exausta me largo no sofá bonito e confortável da sala de estar. este apartamento tem o tamanho ideal do meu sonho, embora o chão do banheiro esteja sempre molhado. eu tenho vinte e poucos anos e já vivi coisas lindas. Um prêmio por algo que escrevi. Uma peça de teatro. O divã. Uma bolsa de estudos no exterior. Uma viagem à África. Uma noite em Dubai. Viver sozinha. Amar uma mulher. cantar. Um mestrado. A poesia. A música.

as coisas mais lindas eu aprendi a viver sozinha. Nesta cidade sem o mar, sem as vozes, sem o trânsito, ora! escondo-me aqui na esperança de jamais ser descoberta.

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